MG: risco em barragem ameaça até atendimento à saúde

O risco de rompimento da barragem da Vale em Barão de Cocais fechou os Correios na cidade, uma agência de banco e pode provocar colapso na rede municipal de saúde. O prefeito, Décio Geraldo dos Santos (PV), afirma que a mineradora se recusa a passar recursos para atendimento médico e quer ajuda do presidente Jair Bolsonaro (PSL). “Não admito nenhuma morte por causa disto”, afirma o prefeito.

O município registra aumento na procura por atendimento no setor de saúde, como para casos de hipertensão, e assistência social, sobretudo na área psicológica, desde 22 de março, quando o nível de alerta da barragem Sul Superior, da Vale, no município, foi elevado a 3, que significa ruptura iminente, informa o Terra.

No último dia 13, a mineradora informou as autoridades que o talude da mina de Gongo Soco pode desmoronar, provocando abalo sísmico que teria até 15% de chances de provocar ruptura da represa. O risco mudou completamente a rotina dos cerca de 32 mil habitantes de Barão de Cocais. Do total, cerca de seis mil terão que sair de casa caso a barragem se rompa, por viverem próximo ao Rio São João, que corta o município.

Os moradores são obrigados a conviver, por sua segurança, com um cenário que a todo momento reforça a possibilidade de a lama invadir a cidade. O meio-fio foi pintado de amarelo para indicar que, ali será invadido pelo rejeito da Vale. Placas estão por toda a parte, mostrando o caminho de fuga a seguir para se encontrar um ponto seguro e escapar da lama.

A cidade tem ainda em pontos estratégicos e carros com grandes altos-falantes instalados na parte superior que serão utilizados para alertar os moradores a deixarem suas casas no caso de rompimento da barragem.

“A população está aterrorizada e com toda a razão, nós também. Temos família na cidade, (isso) preocupa todo mundo. Sempre falo: não admito nenhuma morte”, diz o prefeito. “As pessoas estão adoecendo muito, e por estresse, de esperar alguma coisa acontecer. Precisamos de apoio do governo do estado e até mesmo do presidente, para nos ajudar com recursos.”

Santos diz que, por enquanto, vem conseguindo manter o atendimento, mas há uma dívida com fornecedores no setor de saúde de R$ 4 milhões. O prefeito afirma que a Vale prometeu ajuda para a área, que não chegou até hoje, reclama do comportamento da empresa diante dos impactos pelo possível rompimento da barragem. “Uma coisa é o impacto que a Vale acha que tudo isso tem no município. Outro é o impacto real, que sentimos”, pontua.

O pastor Wellington Ricardo Martins de Souza afirma que a situação na cidade é “agoniante”, e registra aumento no número de atendimentos a fiéis. “Casal que não brigava está brigando. Alunos com notas boas na escola, já não as têm mais”, relata. O religioso afirma que, antes do risco de rompimento da barragem, fazia três atendimentos sociais por semana. “Agora são entre oito e doze por dia. São pessoas que não estão trabalhando mais e pedem para pagar uma conta de luz. Pessoas que pedem uma cesta básica”, conta.

Segundo o pastor, é evidente o impacto econômico do risco vivido pela cidade e o efeito em cascata disso. “Quem vai reformar uma casa, ou construir alguma coisa sabendo que a lama pode levar? Com isso, o pedreiro e dispensado, o depósito não vende nada e manda o empregado embora. É o que está acontecendo”.

Sem Correios e banco

O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Juvenal Caldeira, afirma que desde a última segunda-feira, 20, os Correios e uma agência do Itaú na cidade não abrem. O fechamento coincide com o prazo inicialmente informado pelas autoridades, de que o talude da mina desmoronaria entre o último domingo, 19 e o próximo sábado, 25. Ontem, no entanto, o secretário de estado de Meio Ambiente de Minas Gerais, Germano Vieira, reforçou que o talude vai se romper, mas isso pode ocorrer também depois deste prazo.

“Colocaram uma placa avisando que os Correios não vão abrir. No banco, conversei com o gerente, que me informou estar cumprindo ordens superiores”, diz o secretário. “E o aposentado que recebe naquele banco, vai ter que ir a outra cidade para tirar dinheiro, pagar suas contas”?

Caldeira relata dias de caos na cidade. “Passa um helicóptero e as pessoas já acham que o talude ruiu e que a represa rompeu. Chegaram carretas com água mineral na cidade. A pedido da Defesa Civil, mas as pessoas, quando vêem essas coisas, já acham que o pior aconteceu”.

O prefeito Santos afirma vislumbrar somente um horizonte em que a preocupação vivida pela população de Barão de Cocais se dissipe. “A gente precisa que esse talude desça, e que a barragem fique intacta. O muro está sendo construído, mas tranquilidade mesmo só quando a barragem for descomissionada”, avalia.

O muro, porém, tenta evitar somente a chegada da lama à sede. Construções de três comunidades, Socorro, Tabuleiro e Piteira serão devastadas pela lama, conforme o prefeito. Os moradores desses locais já foram retirados de suas casas. Socorro, por exemplo, segundo Santos, está a dois minutos do alcance da lama. O muro, em função disso, está sendo construído depois destas comunidades, sentido sede da cidade. “Aí teremos outra luta, que é exigir que todas as construções desses locais sejam reerguidas”, diz o prefeito.

Apoio

Em nota, sobre recursos para a área de saúde, a Vale afirma que desde a evacuação dos moradores da Zona de Autossalvamento (ZAS) foram realizados cerca de 1,4 mil atendimentos médicos. “Nesse período foram distribuídos em torno de 1.400 medicamentos. No mesmo intervalo, foram realizados aproximadamente 5.700 atendimentos psicossociais, média aproximada de 59 por dia”, diz a mineradora, em nota.

A empresa diz ainda que mobilizou “sete médicos, sete enfermeiros, oito técnicos de enfermagem, quinze psicólogos, três assistentes sociais, entre outros profissionais destacados para o atendimento aos moradores evacuados, além de sete ambulâncias”. “No momento, a Vale está priorizando a segurança e a qualidade de vida da comunidade”, completa.

22/05/2019

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